É preciso arrancar alegria ao futuro

Por Clodoaldo Macedo e Daniel Emmanuel

O verso que estampa o título deste artigo, extraído de um poema de Vladimir Maiakovski, é um imperativo para enfrentarmos a grave situação do Brasil — uma nação sem perspectiva e sem futuro. Mas, para isso, é necessário que as organizações dos trabalhadores comecem a debater, desde já, um projeto radical, que responda aos principais problemas do povo e do país.

Vivemos um dos períodos mais graves da história do país. As estatísticas oficiais apontam que nos aproximamos rapidamente da marca de 400 mil mortos pelo novo coronavírus. Os estudos científicos demonstram que a maior parte destes óbitos poderiam ter sido evitados não fosse a política negacionista e genocida do governo Bolsonaro, que culminou no atraso na vacinação da população e no colapso do sistema de saúde.

Na esteira da crise sanitária, aprofunda-se também a crise social. A taxa de desocupação atinge patamares alarmantes: o país já soma 13,4 milhões de desempregados; 6,8 milhões de subocupados; 5,8 milhões de desalentados e outras 5,5 milhões de pessoas ficaram impossibilitadas de trabalhar durante a pandemia, sobretudo mulheres, que precisaram deixar o emprego para cuidar dos filhos ou de familiares.

Apesar do aumento da desocupação e do congelamento dos salários, o custo de vida das famílias só cresce. A inflação oficial aumentou 5,2% desde o início da pandemia. O peso foi maior no preço dos alimentos, em especial nos itens de consumo dos trabalhadores, como arroz e feijão, que aumentaram, em média, 15% desde a chegada do novo coronavírus ao país. Como resultado temos um crescimento de 43% a insegurança alimentar, que expressa o aumento da fome e da miséria do nosso povo.

Diante desta realidade, as medidas de isolamento social, adotadas por alguns governadores e prefeitos para tentar conter os índices de contaminação pela COVID-19, acabam por colocar a maioria dos trabalhadores diante de um dilema infame: morrer da doença ou morrer de fome. Isso porque as necessárias medidas de isolamento não são acompanhadas de uma organização das atividades e de garantias para que a população possa garantir a sua subsistência.

Esta contradição foi amenizada em 2020 pelo do auxílio emergencial, que até dezembro passado despejou mais de R$ 320 bi na economia, beneficiando cerca de 68 milhões de pessoas diretamente, e contribuindo para evitar a paralisia do comércio e outras atividades econômicas. Porém, o Congresso Nacional, com o aval do governo federal, estabeleceu para 2021 um teto de R$ 44 bi para o auxílio emergencial, o que irá reduzir o número de beneficiários e o valor do benefício.

Porém a situação é ainda mais grave, porque estes não são problemas conjunturais e temporários, que se resolverão passada a pandemia. A crise sanitária apenas condensou e acelerou um processo de empobrecimento e destruição da estrutura econômica do país que já dura décadas.

Após o colapso do modelo de substituições de importações, na década de 1970/80, o Brasil se localizou como exportador de commodities na economia mundial, então reorganizada sob as diretrizes neoliberais de Reagan e Thatcher. Este caminho deu início a um processo encolhimento da indústria em relação a outros setores da economia e de empobrecimento relativo do país. Como resultado, o PIB brasileiro está estagnado há 40 anos, período em que os únicos setores que realmente enriqueceram foram o agronegócio exportador, as mineradoras e o sistema financeiro.

A queda do preço dos produtos primários e a crise financeira mundial de 2008, que desarticulou a economia mundial, atingiram em cheio a economia brasileira. O grau de dependência externa e o atraso econômico do país se tornaram barreiras intransponíveis para projeto de reconstrução da economia de longo prazo. Por outro lado, a posição de exportador de commodities já não é mais garantia para que o Brasil tenha uma localização de relevo no sistema mundial — hoje marcado pela disputa imperialista entre EUA e China pelo domínio da indústria 4.0 e do comércio internacional.

O empobrecimento do país se tornou o principal obstáculo para a consolidação dos direitos sociais previstos na Constituição de 1988, centro das reivindicações de junho de 2013. Já a falência do modelo de desenvolvimento desencadeou uma violenta disputa entre frações da burguesia brasileira, que travam uma luta de vida ou morte pela hegemonia do controle do Estado e da política econômica. Estes fenômenos ajudam a explicar a crise dos partidos tradicionais, a queda do PT e a eleição de Bolsonaro — uma saída desesperada da pequena burguesia e da burguesia marginal empobrecida.

Todos estes elementos marcam uma nova etapa, caracterizada pelo esfarelamento da Nova República. Trata-se de um período de transição, de crises e de disputas entre as diversas classes e frações de classes pelos escassos recursos do país. Neste contexto, um novo consenso, que contemple aos vários setores em disputa e possibilite um novo arranjo de poder, está muito longe de ser possível. Assim, mesmo que conseguirmos superar rapidamente a pandemia, a crise social e política deve seguir por longo tempo.

Essa triste radiografia demonstra que, se não forem resolvidos os problemas estruturais, caminharemos a passos largos para nos tornar um país miserável, completamente dominado pelo agronegócio — em sua versão mais extensiva e predatória — e pelo capital financeiro. Se este cenário se confirmar, única alternativa que restará ao povo será a miséria e trabalhos precários em serviços como telemarketing e de entrega por aplicativo. Nos tornaremos uma nação sem perspectiva e sem futuro.

Mas acreditamos que é possível, e necessário, construirmos um caminho alternativo. O verso que estampa o título deste artigo, extraído de um poema de Vladimir Maiakovski, é um imperativo para enfrentarmos a grave situação do Brasil. Mas, para isso, é necessário que as organizações dos trabalhadores comecem a debater, desde já, um projeto radical, que responda aos principais problemas do povo e do país.

Para contribuir neste debate, apresentamos, em linhas gerais, o que consideramos ser as três principais tarefas sobre as quais devem se concentrar a elaboração das organizações dos trabalhadores e do povo hoje.

Antes de tudo é necessário apresentar um plano radical para enfrentar os efeitos sanitários e sociais da COVID-19. Ao lado da defesa de vacina para todos e da ampliação do auxílio emergencial, é fundamental exigir ações efetivas para combater o problema da desocupação e da fome. Neste marco, medidas radicais, como controle dos estoques de medicamentos e alimentos, e iniciativas de organização do trabalho e dos serviços essenciais durante e depois da pandemia precisam ser levantados.

Ao mesmo tempo, é essencial começarmos a debater um projeto de desenvolvimento e modernização do país. Não é possível falar em superação da pobreza e distribuição de renda se não apontarmos formas para resolver a questão da produção de riquezas e a dependência externa do Brasil. Para isso, a defesa do patrimônio público, o investimento e pesquisa em áreas estratégicas, como farmacêutica e energética, e o controle estatal das áreas estratégicas, como Bancos e a exportação de commodities — principal provedor de divisas para o país — nos dão alguns pontos de partida para pensarmos esta questão.

Por fim, é imperativo começarmos a pensar alternativas para a reorganização das relações do trabalho. A pandemia acelerou um processo de precarização do trabalho que já vem, há alguns anos, sendo imposto pela burguesia. Neste processo, a classe dominante se apropria de todos os avanços tecnológicos para ampliar a exploração, o que resulta em formas mais precárias e desumanas de trabalho. A disputa pelos benefícios que essas novas tecnologias trazem para a sociedade, assim como a reorganização do trabalho de forma mais humanas e eficientes, deve ser uma de nossas preocupações centrais.

Temos convicção de que levantar a necessidade de derrotar Bolsonaro, antes de 2022, é parte fundamental da denúncia do atraso e do perigo que este governo e sua política representam para o Brasil. Por isso frisamos nossa posição pelo Fora Bolsonaro, já!

Contudo, o debate em torno da alternativa a Bolsonaro não pode se limitar a qual candidato irá substituí-lo no governo. É preciso que as organizações dos trabalhadores e do povo discutam o que é preciso fazer para resolver os problemas do país. Entendemos que os três eixos que apresentamos acima oferecem um bom ponto de partida para este debate estratégico.

*Publicado originalmente em vernal.blog no dia 24 de abril de 2021.
Clodoaldo Macedo e Daniel Emmanuel são militantes do Coletivo Alicerce

“Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres.” (Rosa Luxemburgo)

“Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres.” (Rosa Luxemburgo)