Série “Março de Luta Das Mulheres”

MULHERES DA LINHA DE FRENTE

A linha de frente não é composta por heróis, mas por trabalhadoras! A guerra contra a Covid-19 tem sido travada majoritariamente por mulheres, em ocupações precárias com falta de direitos e descanso, sem EPIs, sem testagem e sem vacina.

79% da força de trabalho da Saúde é feminina;

Mulheres são maioria na Limpeza;

Mulheres são maioria nos serviços de Assistência Social; Mulheres são maioria em atividades essenciais como atendimento e recepção.

Além disso

Em casa, o cuidado das crianças, idosos e doentes recai sobre as mulheres. Isso se agrava com o trabalho remoto e a superlotação das unidades de saúde.

Com o desmonte da assistência social, recaiu sobre as trabalhadoras das escolas (maioria mulheres) a organização e distribuição de alimentos e cestas básicas para as comunidades, através das prefeituras ou campanhas de solidariedade.

Carolina Maria de Jesus

Carolina Maria de Jesus foi uma escritora brasileira, mulher negra e batalhadora que lançou “Quarto de Despejo”, em 1960. Criava sozinha seus três filhos na favela do Canindé (SP), e escrevia diários relatando a fome, o desemprego, a desigualdade e a falta de direitos. Era catadora de papel e através de uma reportagem teve a oportunidade de lançar sua 1ª obra, que foi sucesso de vendas.

Porém, após a curiosidade inicial, foi desvalorizada, e voltou a catar papel até sua morte em 1977. Sua obra é sensível, forte e extremamente atual: hoje a miséria atinge mais de 14 milhões de famílias no Brasil. Lutar para que todas as Carolinas tenham dignidade plena e o direito de expressarem sua voz.

Conheça outras obras: Casa de Alvenaria (1961), Pedaços de Fome (1963) e Provérbios (1963).

Maria da Conceição Evaristo

Maria da Conceição Evaristo nasceu em 1946, em Belo Horizonte (MG). Filha de Joana Josefina Evaristo, Conceição trabalhou como empregada doméstica antes de cursar o magistério, iniciando sua carreira como professora de escola pública. Na década de 1970, migrou para o Rio de Janeiro onde formou-se em Letras pela UFRJ e concluiu o doutorado em literatura pela UFF, em 2011.
Foi ainda na década de 1990 que publicou suas primeiras poesias e textos de ficção pelo coleitivo cultural e editora Quilombhoje.

Em sua vasta obra nos deparamos com textos que nos aproximam da condição do povo negro, principalmente da mulher negra, na sociedade brasileira, estruturalmente orientada pelo racismo e o sexismo. Foi Conceição que nos apresentou o conceito de “Escrevivências”, que seria a criação de novas narrativas dando protagonismo a grupos que são historicamente explorados e tem suas memórias violadas.

Comprometida com as lutas de emancipação, ela diz que “Nós não escrevemos para adormecer os da casa-grande, pelo contrário, é para acordá-los dos seus sonos injustos”.

Video Leituras Brasileiras
https://www.youtube.com/watch?v=QXopKuvxevY

Vídeo: “Escritora Conceição Evaristo recita poema para Marielle Franco”
https://globoplay.globo.com/v/6585946/

Principais obras:

Ponciá Vicêncio (romance, 2003)
• Becos da Memória (romance, 2006)
• Poemas da recordação e outros movimentos (poesia, 2008)
• Insubmissas lágrimas de mulheres (contos, 2011)
• Olhos d’água (contos, 2014)
• Histórias de leves enganos e parecenças (contos e novela, 2016)
• Canção para ninar menino grande (romance, 2018)

Lélia Gonzalez

Nascida em Belo Horizonte (MG), em 1935, filha de Accacio de Almeida e Urcinda de Almeida, Lélia Gonzalez foi uma das pioneiras na discussão de como as relações entre classe, gênero e raça se articulam e se expressam na realidade latino-americana.
A partir do entendimento de que no Brasil existe o desenvolvimento de um capitalismo dependente, Lélia se debruçou em entender como o racismo e sexismo integram esse sistema.

O desmonte da ideologia da democracia racial, gestado pela elite do Brasil desde o pós-abolição e difundido sobretudo a partir de 1930, também foi tema urgente em suas reflexões. A partir da análise da experiência das mulheres negras desde a época da colonização e da escravidão, ela demonstrou como a violência contra essas mulheres foi a base da miscigenação difundida como “harmonia racial” pelos teóricos da democracia racial.

Lélia esteve presente em importantes organizações do movimento negro de sua época. Participou da organização do Coletivo de Mulheres Negras N’Zinga , do Instituto de Pesquisas das Culturas negras do Rio de Janeiro (IPCN- RJ), do Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo e do Movimento Negro Unificado (MNU), que foi um marco histórico da reorganização do movimento negro no Brasil pós Ditadura Militar.

Lélia Gonzalez nos deixou em 1994, mas segue imprescindível para o entendimento da formação histórica brasileira.

Bibliografia

Lugar de negro (Lélia Gonzalez e Carlos Hasenbalg , 1982)

Festas populares no Brasil (Lélia Gonzalez, 1987)

Por um feminismo afro-latino-americano (Organizado por Flavia Rios e Marcia Lima. Contém textos, falas e ensaios de Lélia Gonzalez. 2020)

Lélia Gonzalez — Primavera para as rosas negras ( Uma das primeiras coletâneas com textos e entrevistas de Lélia Gonzales. UPCA, 2018)

Lélia Gonzalez (Alex Ratts e Flavia Rios. 2010)

Rosa Luxemburgo

Há 150 anos, em 05 de março de 1871, nascia Rosa Luxemburgo, revolucionária, grande militante e teórica comunista. Nascida na Polônia, vivenciou a opressão contra a classe trabalhadora entre os séculos XIX — XX, apostou no protagonismo do povo nas lutas e dedicou a vida à luta pela emancipação humana.

Rosa deixou um legado prático exemplar e uma obra teórica extremamente enriquecedora ao marxismo. Mantendo um pensamento crítico e independente, foi fiel à classe trabalhadora e à revolução. Se opôs ao revisionismo reformista e à adesão à 1ª Guerra Mundial imperialista. Foi aí que rompeu com a social-democracia, e militou em prol da reorganização do movimento comunista na Alemanha e no mundo.

Combinou a firmeza revolucionária e o amor à humanidade e à vida, sintetizadas em uma de suas frases mais conhecidas: “Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres”.

Sua aposta, sobretudo nos momentos mais difíceis, sempre foi na capacidade humana de aprender e se auto superar, transformando as derrotas na possibilidade das vitórias. A rosa mais vermelha de Berlim foi vítima da repressão, sendo presa muitas vezes, torturada e assassinada pelas mãos do governo social democrata alemão no dia 15 de janeiro de 1919, deixando como legado sua história de luta e suas ideias revolucionárias que inspiraram gerações de lutadores até hoje.

“Há todo um velho mundo ainda por destruir e todo um novo mundo a construir. Mas nós conseguiremos, jovens amigos, não é verdade?”

“A libertação da classe trabalhadora deve ser obra da própria classe.”

ROSA LUXEMBURGO, PRESENTE!

Obras sugeridas:

Reforma ou Revolução, 1899.
A Teoria Marxista e o Proletariado, 1903
A acumulação do capital, 1913.
A Proletária, 1914.

Elza Soares

Elza Soares é uma das maiores cantoras e compositoras brasileiras, voz forte do samba e da MPB que já somou 90 anos de vida, luta, protesto e contribuição cultural.

Em 70 anos de carreira, Elza pensou, escreveu e cantou sobre o racismo e as desigualdades sociais do Brasil, questionando o papel que é designado à mulher e as injustiças que vive o nosso povo trabalhador. Interpretou e eternizou a canção ainda tão atual que diz “A carne mais barata do mercado é a carne negra”, acreditando que é dever de todos abrirem os ouvidos para essa realidade.

De origem humilde, cantou desde pequena, na companhia de seu pai. Com cerca de 12 anos, foi obrigada a se casar e conheceu de perto a violência doméstica e sexual. Sobreviveu ao desemprego e aos 21 anos já tinha perdido dois filhos para a fome. Enviuvou e decidiu participar de um concurso para cantores, no programa de Ary Barroso na rádio Tupy, para tentar ganhar um prêmio em dinheiro e salvar seu outro filho que estava doente. Em tom de deboche pela sua aparência, o apresentador perguntou a ela “de que planeta você veio?” e Elza respondeu _“do planeta fome”_.

Sua resposta espantou tanto quanto sua voz. Elza tirou o 1º lugar no concurso e passou a cantar em estabelecimentos e foi construindo sua carreira. Foi vítima de violência também no seu casamento com o jogador Mané Garrincha, e cantou também sobre isso, para empoderar outras mulheres. Elza foi perseguida durante a ditadura militar e chegou a ter sua casa metralhada, precisando deixar o país.

Com olhar aguçado e certeiro para a realidade, Elza diz que vai “até o fim cantar”. Seus álbuns mais recentes escancaram temas urgentes para nosso povo: a violência contra a mulher, a opressão e a luta do povo negro, a intolerância religiosa, a LGBTfobia, o feminicídio, a falta de acesso à cultura e à educação.

Conheça mais algumas obras:

- Mulher do fim do mundo

- Maria da Vila Matilde

- Libertação

  • A coisa tá preta

Dona Ivone Lara

Dona Ivone Lara foi uma mulher da arte brasileira e da saúde. Conhecida nacionalmente como a Rainha do Samba ou a Primeira Dama do Samba, Yvonne Lara da Costa (nome completo) se destacou como cantora e compositora tendo importantes contribuições nos enredos do samba brasileiro.

Dona Ivone Lara compôs o samba “Nasci para sonhar e cantar” e foi a primeira mulher a entrar para a ala de compositores da escola de samba Império Serrano com o enorme sucesso de mais uma de suas composições: Os Cinco Bailes da História do Rio. Desfilava na ala das baianas, tocava instrumentos como cavaquinho, ela enriqueceu o carnaval com sua voz potente de mulher e mãe de dois filhos.

Além da trajetória artística, Dona Ivone Lara teve uma importante trajetória nos trabalhos de assistência social no país. Formada em enfermagem, atuou por mais de trinta anos com pacientes psiquiátricos trazendo uma abordagem mais humanizada no processo terapêutico utilizando de oficinas de música para promover o bem estar dos pacientes. Dona Ivone especializou-se em terapia ocupacional e foi funcionária pública do Ministério da Saúde.

Pontos marcantes:

- o bloco de carnaval Loucura Suburbana existe até hoje e surgiu das oficinas de músicas que a Rainha do Samba fazia para os pacientes da saúde mental.

- atuou como atriz interpretando canções como: Mas Quem Disse Que Eu Te Esqueço, e foi a Tia Nastácia do Sítio do Pica Pau Amarelo.

- foi homenageada pela Império Serrano em 2012 com o enredo “Dona Ivone Lara: o enredo do meu samba”.

Conheça mais de suas obras:

  • Sorriso Negro
    - Tiê
    - Mas quem disse que eu te esqueço
    - Sonho Meu
    - Em cada canto uma esperança

Dandara dos Palmares

As fontes sobre a existência de Dandara dos Palmares ainda são muito escassas, mas não diminuem a potência de sua luta no período do Brasil colonial. Dandara foi uma guerreira e líder quilombola, ao lado de Zumbi, na República de Palmares.

Os poucos estudos que tentam traçar a vida de Dandara atribuem a ela grande importância na manutenção da agricultura cultivando milho, cana, banana e mandioca. Teve papel substancial nas tropas guerreiras femininas e masculinas no enfrentamento aos ataques dos portugueses ao que viam Palmares como uma ameaça.

território de Palmares localizava-se na Serra da Barriga, na então Capitania de Pernambuco, região hoje pertencente ao município de União dos Palmares, no estado brasileiro de Alagoas. Na época, chegou a reunir mais de 20 mil palmarinos que resistiram até 1694 quando os europeus o destruíram. Algumas fontes dizem que antes de ser capturada a líder de Palmares jogou-se de uma pedreira pois preferia a morte do que voltar a ser escravizada.

O legado que Dandara dos Palmares representa ainda vive na luta de reparação histórica do nosso país por distribuição ampla de terras, o fim da exploração dos mais pobres e por uma vida digna ao povo.

Conheça a história dos quilombos e suas lutas:

- Quilombos: resistência ao escravismo, Clóvis Moura.

- Mulheres quilombolas: territórios de existências negras femininas, Selma dos Santos Dealdina.

  • O conceito de Quilombo e a resistência Cultural Negra, Beatriz Nascimento.

Beatriz Nascimento

Maria Beatriz Nascimento nasceu em Aracaju, capital de Sergipe em julho de 1942. Filha de Rubina Pereira do Nascimento, dona de casa, e Francisco Xavier do Nascimento, pedreiro. No final da década de 1940, a família migrou para a capital do Brasil, Rio de Janeiro, em busca de melhores condições de vida.

Em 1968, Beatriz começou a graduação em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no auge da Ditadura Civil Militar, e em 1971 tornou-se professora da rede estadual do Rio.

Com o objetivo de compreender a realidade do negro no Brasil, em 1973 Beatriz Nascimento ajudou a organizar o Grupo de Trabalho André Rebouças, na Universidade Federal Fluminense (UFF), responsável por organizar o seminário “A contribuição do negro para a formação social brasileira”. Esteve presente também na fundação do Instituto de Pesquisa das Culturas negras (IPCN). Em 1981, concluiu a pós-graduação em História pela UFF, com pesquisa que recebeu o título “Sistemas alternativos organizados pelos negros: dos quilombos às favelas”.

Seu interesse de estudo compreendia a filosofia, psicologia e psicanálise, literatura, cinema, movimentos negros, mulheres negras e diáspora africana. Beatriz procurou entender quais mecanismos mantinham as mulheres negras como maioria nos postos de trabalho mais subalternos.

Uma de suas produções mais conhecidas é o documentário Ori, lançado em 1989. A partir dos textos e da narração de Beatriz, ele recupera as trajetórias dos movimentos negros no Brasil a partir da década de 1970, tendo os quilombos como ideia central e tendo como um dos fios condutores a sua trajetória de vida. Beatriz dedicou-se a revelar uma visão do passado a partir da população negra, debruçando-se a respeito dos quilombos e entendendo-os como sistemas sociais que sobreviveram ao período colonial e foram ressignificados pelo povo negro após a abolição. Beatriz é uma das maiores estudiosas sobre o tema, e ainda pouco lembrada nas Universidades e escolas do país.

Em janeiro de 1995, infelizmente foi alcançada pela violência que atinge milhares de mulheres. Ao acolher uma amiga que passava por um relacionamento abusivo e violento, Beatriz foi assassinada pelo esposo da vítima.

Mulher, negra, intelectual, militante, nordestina, historiadora, professora… Beatriz nos deixou um vasto legado e nos afirma a necessidade de pensarmos formas coletivas de resistência como ferramenta de construção de um novo projeto de país.

Vídeos:

“A história do Brasil é uma história escrita por mãos brancas”, trecho retirado do documentário “O negro da senzala ao soul”: https://www.youtube.com/watch?v=-LhM1MaPE9c

Documentário Ori (1989): https://negrasoulblog.wordpress.com/2016/08/25/309/

Angela Davis

Nascida em Birmingham, Alabama, (EUA), cidade marcada pelas leis segregacionistas raciais, Angela Davis conviveu desde muito cedo com as consequências que o racismo ocasiona na vida da população negra.

Aos 16 anos vai para New York fazer um intercâmbio, onde leu pela primeira vez o “Manifesto do Partido Comunista” e se aproxima de organizações políticas de juventude.

Nos anos 60, com a ascensão da luta dos movimentos negros e feministas, participou do Partido dos Panteras Negras denunciando a prisão arbitrária dos Irmãos Soledad e as violações de direitos arquitetadas pelo governo dos Estados Unidos. Considerada na época uma das fugitivas entre os dez mais perigosas procuradas pelo FBI, foi presa e ficou conhecida internacionalmente com a campanha “Free Angela Davis”que lutava pela sua liberdade e a de outros presos políticos.

Militante ativa do abolicionismo penal, acredita que o encarceramento em massa de negros, latinos e pobres é uma forma de escravidão moderna que serve para manutenção da estrutura capitalista. Que o sistema carcerário, não é a solução para o fim da violência, pelo contrário, a potencializa, uma vez que configura mais um mecanismo de controle e dominação, principalmente de negros e pobres.

Angela é filósofa, especialista em Hegel e Marx, candidatou-se à vice-presidência dos EUA pelo Partido Comunista Americano, com fortes críticas à democracia e às instituições do país. Ainda hoje milita pelos movimentos sociais negros e feministas, crendo que a solução para os nossos problemas virá pela construção coletiva socialista.

Audre Lorde

“EU NASCI NEGRA, E MULHER”, assim se definia, a escritora, ativista, poeta, lesbica, mãe, “continuo de mulheres”, Audre Geraldine Lorde (1934–1992). De origem caribenha-estadunidense escreveu diversos ensaios sobre feminismo, racismo, sexualidade e maternidade.

Criticou o movimento feminista burgues dos anos 60 por focarem nas questões da classe média, além de se basear na “Teoria da diferença”, no qual defendia a ideia binaria de mulheres e homens algo muito simplista e que não incluia as categorização sobre classe, raça e sexualidade. Formada em Biblioteconomia, trabalhava na Universidade de New York e paralelamente a outras funções como operária de fábrica, técnica de raio-X e assistente social.

Intensa, negra, mulher, marginalizada, lésbica seus textos são cheios de enfrentamentos e furias contra a opressão e as hierarquizações. Lorde confrontou as noções patriarcais e afirmou que: “Deixe-me dizer-lhe pela primeira vez sobre como era ser uma mulher preta poeta nos anos 60, de salto, significava ser invisível. Significava ser realmente invisível. Significava ser duplamente invisível como uma mulher feminista preta e significava ser triplamente invisível como uma lésbica preta e feminista.

Lorde de câncer de mama em 1992, mas suas ideias e contribuições seguem sendo sementes para o feminismo revolucionário.

Leia Audre Lorde:

Irmã outsider: Ensaios e conferências(1981)

Entre nós mesmas: poemas reunidos(1970)

A unicornia preta (1978)

Textos escolhidos de Audre Lorde (coletânea) organizado pela Difusão Herética.

“eu sou o fluxo

passado que você nunca vai percorrer

a mulher com quem você não pode lidar

eu sou a foz

do seu desprezo.”

Uma Chacina Pequena do livro “The Black Unicorn”, de 1978.

MULHERES QUE BATALHAM- RUSSAS

“PÃO, PAZ E LIBERDADE”, com essas palavras de ordem, operárias russas saíram às ruas em 8 de março de 1917, marcando o início da maior revolução do século XX.

Naquele ano, as mulheres russas representavam a maior parte da população trabalhadora que sustentava o país, enquanto os homens combatiam na 1ª Guerra Mundial. Trabalhando em dobro, em condições insuportáveis (a cada duas mães que amamentavam, uma morria), num país assolado pela fome, as sucessivas greves e motins sustentados pelas russas chegaram ao ápice quando elas tomaram as ruas no dia 8 de março. A agitação que seguiu nos dias posteriores deu fim ao Império Russo.

Embora já houvesse uma construção para que março fosse o mês das mulheres, foi esse acontecimento que definiu o 8 de março como o Dia Internacional de Luta da Mulheres. Esse dia foi a faísca que acendeu a chama revolucionária, mudando a história da humanidade para sempre.

Após a tomada do poder pelas trabalhadoras/es, a emancipação da mulher foi uma das tarefas centrais da Revolução. Nos anos posteriores, elas conquistaram direitos que não havia em quase nenhum país do mundo: votar, ser candidata, divorciar-se, bem como a possibilidade de abortar. Conheça algumas mulheres importantes para essa luta:

INESSA ARMAND foi uma militante bolchevique, revolucionária e agitadora das ideias socialistas. Escreveu muitos panfletos pela liberdade feminina e contra a exploração da mulher na família tradicional. Participou da Revolução de 1905 e, após a revolução de Outubro de 1917, dirigiu o Departamento de Mulheres do Partido Comunista, construindo a I Conferência Internacional de Mulheres Comunistas, em 1920.

NADEJDA KRUPSKAIA foi uma revolucionária bolchevique e pedagoga, com trajetória marcante na luta por uma educação socialista e libertadora. Fez parte da Redação do Iskra, jornal do Partido Social-Democrata Russo e do Comitê Central em 1905. Após a Revolução de Outubro, dedicou-se à elaboração de um projeto de educação, criando métodos e práticas de ensino na União Soviética. Lutou pela alfabetização na Rússia e escreveu sobre política, agitação, ensino e literatura.

ALEXANDRA KOLLONTAI foi uma revolucionária, jornalista e escritora, autora do livro “A nova Mulher e a Moral Sexual”. Participou do Partido Social-Democrata Russo e da Revolução de 1905. Após a Revolução de 1917, foi a primeira mulher a ocupar um cargo no governo. Junto com Inessa, criou o Departamento de Mulheres do Partido Comunista, atuando na conquista das mais avançadas leis que garantiram direitos para as mulheres na União Soviética.

Fontes: A Revolução das Mulheres. Organizadora: Graziela Schneider Urso. Pão e Rosas: Identidade de Gênero e Antagonismo de Classe no Capitalismo. Andrea D’Atri.

Teresa Franco (Nega Diaba)

Nascida na cidade de Rio Pardo, Teresa Franco veio para Porto Alegre aos 12 anos para ser acolhida por familiares. Ao longo de sua vida morou em bairros como a Cruzeiro e a Vila Conceição, trilhando assim sua caminhada na organização comunitária.

Mulher, negra, periférica e de tradição de matriz africana, denunciava os problemas discrminação racial e a desassistência que o povo sofre. Teve notoriedade com suas participações na Rádio Farroupilha, junto ao radialista Sérgio Zambiasi, quando foi falar sobre os bailes que organizava no Alto Teresópolis.

A história de Teresa é marcada na história por ser a primeira mulher negra eleita vereadora titular na cidade de Porto Alegre. Assumiu o mandato em 1997, foi vice-presidente da Comissão de Defesa ao Consumidor e dos Direitos Humanos. Não há muitas fontes sobre a vida de Nega Diaba, mas os registros das sessões da Câmara e os relatos de pessoas próximas nos ajudam a construir um pouco sua trajetória. Um de seus colegas de bancada na época fez uma moção de repúdio em defesa de Teresa, pois alguns vereadores a chamavam de “macumbeira” e “bruxa”.

Nega Diaba foi mãe de seis filhos e faleceu em 2001 aos 63 anos de idade. Depois de Teresa, outras mulheres negras foram eleitas vereadoras em Porto Alegre: Saraí, Karen Santos, Bruna Rodrigues, Laura Sito e Daiana Santos.

Figuras como Teresa Franco em espaços institucionais ainda causam incômodos por tensionar as estruturas e carregar uma ideia de luta que não se restringe à superestrutura política. Nos faz pensar também sobre a participação de mulheres nas instâncias de tomada de decisão nos parlamentos, que hoje no Brasil é de apenas 15% e de 2% para mulheres negras.

Conheça Teresa Franco:

24 anos depois, Nega Diaba ainda é a única mulher negra eleita para a Câmara de Porto Alegre (Matéria do Sul 21 de Andressa Marques)

A redemocratização abriu caminho? Presença feminina no sistema político rio grandense e diferentes trajetórias na Câmara Municipal de Porto Alegre (1982–2016) (TCC de Juliana Barcellos Ramos — UFRGS)

Memorial da Câmara Municipal de Porto Alegre — Teresa Franco

Marielle Franco

Marielle Francisco da Silva nasceu e cresceu na favela do complexo da Maré, no Rio de Janeiro. Se apresentava como “cria da Maré” e lutou até o fim da vida contra o descaso com as vidas das pessoas que vivem em favelas e sofrem com o abuso da força policial diariamente. Mãe de Luyara Franco e irmã de Anielle Francos, que hoje continuam germinando as sementes das ideias de Marielle e levando adiante sua memória.

Socióloga formada pela PUC-Rio e mestra em administração pública pela Universidade Federal Fluminense (UFF), foi eleita vereadora em 2017 pelo PSOL Carioca, fazendo a quinta maior votação da cidade.Em sua atuação política, se posicionou e lutou contra o genocídio sofrido por jovens negros de periferia, justificado pelo Estado como uma guerra às drogas e tentativa de pacificação das favelas. Denunciou também a atuação violenta das milícias nas comunidades cariocas. Foi também coordenadora da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj)

14 de março marca a data que a 3 anos nos perguntamos #QuemMatouMarielle? e #QuemMandouMatarMarielle?, a vereadora foi executada em 2018 ao sair da atividade “Jovens Negras Movendo as Estruturas”. Marielle e Anderson Silva, que dirigia o carro, foram alvejados por 10 tiros e morreram no local.

As investigações sobre o assassinato da parlamentar ainda estão em andamento e já foram

apontados fortes indícios de envolvimento da família Bolsonaro com o caso através da ligação da mesma com grupos milicianos. O assassinato de Marielle foi político e uma tentativa de conter sua atuação que vinha batendo de frente com organizações criminosas e que atualmente estão por dentro do Estado brasileiro.

Conheça mais o legado de Marielle:

“UPP — a redução da favela a três letras: uma análise da política de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro” ( Dissertação de Marielle disponível gratuitamente no repositório da UFF. Link: https://app.uff.br/riuff/handle/1/2166)

“A emergência da vida para superar o anestesiamento social frente à retirada de direitos: o momento pós-golpe pelo olhar de uma feminista, negra e favelada”

artigo de Marielle disponível em:https://www.cedefes.org.br/.../Capitulo-MarielleFranco.pdf)

Instituto Marielle Franco (www.institutomariellefranco.org/)

Agenda Marielle Franco (www.agendamarielle.com/)

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CONHEÇA O COLETIVO ALICERCE

O Alicerce é uma organização política composta por trabalhadores/as, juventude e movimento negro e popular. O que nos une é a necessidade de enfrentar coletivamente os problemas que vivemos, para impulsionar as ações do movimento. Entendemos que nossa força está no envolvimento de cada um/a nos debates e mobilizações, com autonomia e independência de classe. Buscamos contribuir para que a classe trabalhadora e a juventude se mobilizem por suas reivindicações imediatas e pela construção de organismos que possibilitem a luta pelo poder político de forma a construir “um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres” (Rosa Luxemburgo)

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“Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres.” (Rosa Luxemburgo)

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Coletivo Alicerce

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“Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres.” (Rosa Luxemburgo)

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